SOBRE ELEIÇÕES E AGRESSÕES por Sérgio Vianna

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Enio Barroso Filho é cadeirante – na foto com Lula – e foi agredido nas ruas de São Paulo por três homens da campanha de Aécio Neves. Os agressores gritavam pra ele: “Te conheço da internet, petralha do caralho! Estamos de olho!” e “Não é porque você é um aleijado comunista que não mereça uma surra pra te endireitar.”

“A Luta de Classes antes escamoteada veio à tona agora, quando um dos lados percebeu que poderia derrotar o projeto de governo popular e democrático que temos no Brasil há doze anos.

O debate, na disputa eleitoral, deveria ser ideológico, lastreado nas propostas que o PT e o PSDB defendem para o país, afinal, são os dois partidos que estão disputando as eleições presidenciais desde 1994 com duas vitórias tucanas e três petistas.

Isto porque a terceira via, tão badalada como necessária, ora com Enéas – PRONA ou Brizola – PDT (94), depois com Ciro Gomes – PPS (98), de novo com Ciro Gomes – PPS ou Garotinho PSB (2002), com Heloísa Helena – PSOL (2006), com Marina Silva – PV (2010), e de novo com Marina – REDE/PSB (2014), jamais se viabilizou. E a proposta alternativa à bipolar disputa entre PT e PSDB vem se transferindo não só de um candidato a outro como vem sendo substituída na base programática dos partidos capitaneados pelos concorrentes que se sucederam desde que Itamar Franco deixou a presidência.

Restou novamente o embate PT versus PSDB nesse segundo turno de 2014. E se Lula, com 61,28%, venceu Serra, com 38,72%, no segundo turno de 2002, e depois se reelegeu com 60,83% contra 39,17% de Alckimin no segundo turno de 2006, vitórias contundentes conquistadas na disputa mais sobre projetos de governo, houve uma mudança radical nas eleições de 2010, com a introdução do método do ódio e da mentira protagonizado pela candidatura de Serra. Ainda assim, Dilma venceu a disputa com 56,05% dos votos válidos contra os 43,95% obtidos por Serra. Entretanto, há que se notar que a diferença percentual diminuiu e se antes os tucanos não atingiram sequer os 40%, José Serra, em 2010, ultrapassou aquela barreira e se aproximou dos 44% de votos válidos. Devem ter imaginado que o resultado percentual um pouco melhor, alcançado com a deturpação da campanha, poderia ser o caminho, desde que aumentassem o tom da discórdia e da manipulação, o que foi feito desde a posse de Dilma.

O ódio foi introduzido sim em 2010 por Serra, com as primeiras manifestações contra nordestinos, e da mentira da bolinha de papel, por exemplo, que são apenas lembranças simbólicas das duas searas – com as quais Serra deve ter incentivado o PSDB e o candidato de agora, Aécio Neves, a investir mais na truculência, no ódio, na mentira, na tergiversação, na conspiração, na inversão de valores – com a contribuição mais que fundamental de toda mídia empresarial, que durante todo o mandato de Dilma martelou as teses da velha UDN, aquela que tentou derrubar Vargas pelo golpe e o levou ao suicídio, atrasando o golpe militar por dez anos. A mesma UDN que tentou impugnar a eleição de JK – que só tomou posse pelo levante militar liderado pelo General Lott – alegando (a UDN) a tese da não maioria dos votos, o mesmo udenismo que impediu a posse de Jango após a renúncia de Jânio Quadros, forçando o Congresso a adotar o parlamentarismo para impedir João Goulart de ser Chefe de Governo, o mesmo udenismo que levou parte da população a apoiar o golpe militar com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade em 1964.

E vieram 21 anos de ditadura cruel, sendo uma de suas milhares de vítimas a agora presidente Dilma Rousseff, que na juventude de seus pouco mais de vinte anos lutava pelo fim da ditadura e pelas liberdades democráticas, mas presa, foi torturada por vinte e dois dias seguidos com palmatória, socos (que quebraram o maxilar dela), pau-de-arara, cadeira do dragão, choques elétricos, fora as humilhações das sevícias.

E foi assim que chegamos a esse clima atual, onde o debate programático ou ideológico deu lugar a mais uma campanha presidencial lastreada nas velhas táticas udenistas, todas vivas em nossa memória como tática condutora de campanhas difamatórias muito usadas pelos golpistas de todos os tempos, e absolutamente atualizadas e em dia com a realidade da campanha desenvolvida pela mídia empresarial e seus representados da elite dominante (por favor, não me venha com Chico Mendes – Marina já foi muito infeliz no episódio), banqueiros e financistas daqui e do exterior, ideólogos do mercado livre, do desemprego (algum é necessário para ajustar a inflação, segundo Armínio Fraga), do Estado mínimo, da precarização do trabalho, da terceirização sem regulação, da privataria e da entrega do patrimônio público – sempre ao preço de banana podre, como foi com a Vale do Rio Doce, também só um exemplo dos muitos casos – enfim, onde os direitos da maioria do povo só estão nas palavras ocas e vazias do agora representante dessa linhagem, Aécio Neves, que levou Minas a dever 183% de suas receitas anuais, Estado onde doentes são transportados por vans e ônibus por centenas de quilômetros para simples consulta, local em que 98 mil professores foram contratados sem concurso público – agora ameaçados de demissão pela decisão final do Supremo Tribunal Federal, e que a segurança pública piorou a níveis nunca vistos, com mais de 50% de crescimento nos crimes de toda natureza, e onde o então governador Aécio se deu ao luxo de construir um aeroporto na fazenda da família pela bagatela de 14 milhões de reais (18 milhões atualizados), e de trancar a “benfeitoria” deixando a chave com o titio.

Não foi à toa que perdeu a eleição no primeiro turno para Dilma e que seu candidato a governador – escolhido a dedo – foi derrotado ainda no primeiro turno.

E diferentemente de uma disputa de projetos e programas de governo temos essa pantomina que repete ad eternum o mesmo gestual há quatro anos e que conseguiu criar esse clima de ódio e mentiras, levando agora às agressões de toda sorte, iniciadas pelas ofensas verbais, e que vão chegando às provocações físicas e de humilhações públicas a quem não atende seus discursos de antagonismos e de ódios e preconceitos de toda sorte.

É a Luta de Classes, antes escamoteada, e que agora veio à tona com todos esses métodos udenistas e fascistas. Os poderosos, a elite dominante, aqueles seus sabujos, todos acostumados desde Dom João VI aos prazeres do ócio e da vida fácil, sempre à custa de escravos e escravizados, operários e camponeses humilhados, que pretendem tomar – seja qual for o tipo de golpe a se utilizar – o controle do governo, para que possam voltar seus privilégios e “direitos” imaginários, do mesmo jeito que aqueles que se achavam ter esse “direito”: os donos das Capitanias Hereditárias, os Senhores de Engenho, o povo da Casa Grande.

O cadeirante, objeto do artigo do bravo e contundente Eduardo Guimarães, é mais uma vítima da hora. Outros virão, seguindo-se esse roteiro macabro dos udenistas do momento, hoje mascarados como tucanos e seus apaniguados e seguidores ingênuos, aqueles que estão do lado de cá na vida real e se imaginam os assimilados aceitáveis aos olhos do povo da Casa Grande.

Para compreender a dimensão dessa luta exige-se um mergulho em nossa história, sem o qual a pasteurização de palavras ao vento pode contaminar inocentes (úteis) e bem intencionados (ingênuos), todos esses se achando parte de uma revolta, que nada mais é do que uma outra faceta da Luta de Classes, em que os dominadores se utilizam dos tolos para alcançar seus propósitos inconfessáveis. É disso que se trata, o segundo turno dessa eleição. O resto é paisagem.

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2 opiniões sobre “SOBRE ELEIÇÕES E AGRESSÕES por Sérgio Vianna

  1. Obrigado, Liliana, por sua generosidade. Ser lido já é um bálsamo, porque ao escrever gritamos ao mundo. Tentamos colocar pra fora, pras pessoas, os nossos sentimentos, a nossa razão. E ser publicado, aí já é um show. Só acontece quando endossam seu grito que veio da alma, que busca a compreensão de seus pares nesta árida Terra, o planeta que é de todos, mas que alguns se acham mais donos que ou outros. Beijão!

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    • Sérgio, meu grande amigo!
      Me comove, me entristece, me enoja viver tudo que eu tenho vivido nessas eleições. Mas também me move. A continuar lutando com minhas ideias, com meu ideais. A continuar lutando pra que esse nosso país seja um país feito e governado para todos. Este meu espaço estará sempre aberto para você compartilhar com meus leitores, suas ideias, seus ideais. Um beijo Liliana

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