“O macho alfa e a presidenta” por Marina Pereira Pires de Oliveira*

Não é possível que, depois de tantas conquistas e lutas, as mulheres brasileiras possam votar sem estarem plenamente conscientes do sexismo que domina a figura do candidato do PSDB à Presidência e das implicações subliminares e culturais de uma possível vitória de Aécio no segundo turno.

As eleitoras demoraram um pouco, mas já começam a acordar para o significado de uma possível eleição do candidato do PSDB, Aécio Neves, à Presidência da República.

Uma pesquisa rápida no Google, em 16 de outubro, tendo como referência as palavras “Aécio + Mulheres”, retorna o seguinte resultado, ordenado por número de acessos: em primeiro, notícias relacionadas ao risco de cortes orçamentários na Secretaria de Políticas para as Mulheres. Em segundo e terceiro lugar (pasmem!), blogs altamente sexistas, batendo recordes de acesso ao apresentarem: “10 mulheres gatas que o Aécio já pegou” – versão repaginada do viral de internet anterior: “10 motivos para votar no Aécio”, que mostrava mulheres bonitas com as quais o presidenciável já se relacionou.

Desnudar os comportamentos sexistas do candidato Aécio Neves e seu poder de incentivar os machistas de plantão a saírem do armário, com comentários de baixo calão nas redes sociais, nos bares e nas ruas do Brasil, é tomar consciência do simbolismo em jogo na atual campanha presidencial.

Ao fazer uso à exaustão da imagem da mulher-objeto, da qual as brasileiras, na sua imensa maioria, têm tentado se livrar nos últimos 100 anos, por meio de muita luta, o candidato tucano torna-se o herói de homens que não conseguiram, até hoje, engolir o fato de uma mulher ter chegado à Presidência do Brasil, em 2010.

Pior. O patriarcado e os chauvinistas estão ao lado de Aécio para derrotar uma mulher que foge do estereótipo da boazuda, burra e que chegou ao poder vestida com a seriedade de uma militante de esquerda, torturada pela ditadura, separada e forte.

Uma parte do Brasil se vinga agora de Dilma, por ter desfilado em carro aberto na sua posse como presidente ao lado da filha e não do marido, como caberia a uma “mulher direita” neste País, que, no século 21, segue sendo arcaico em seus valores culturais e sociais.

Recordo-me dos palavrões dirigidos a Dilma na abertura da Copa do Mundo, em São Paulo. Quando um político homem, por mais corrupto e safado que fosse, teve que passar por xingamentos públicos de tamanha agressividade?

Cena deletéria repetida pela militância tucana, que berrava na entrada do debate da TV Bandeirantes, no último dia 14/10 : “Vaca! Vaca!”, com muita delicadeza. Tais atitudes mostram os efeitos colaterais causados pelo crescimento da candidatura de Aécio, o playboy bem-sucedido, transformado em salvador da pátria, simplesmente porque as circunstâncias o levaram a ser o candidato que pode colocar a primeira mulher presidente do Brasil em seu devido lugar, fora do poder.

Não importa o currículo e nem o passado de Aécio, neste momento, muitos sequer o enxergam, mas o apoiam porque, do ponto de vista simbólico, representa a retomada do poder pelos machos, e ainda por cima de tudo, bem nascidos do Brasil.

Lembrar que as mulheres têm um valor, para muito além das suas características físicas e dos seus atributos sexuais, e tratá-las com respeito é valorizar a cidadania de todos os brasileiros.

A construção da verdadeira democracia passa pelo enfrentamento de múltiplas desigualdades, características do Brasil. Diferenças de renda sim, mas também regionais, de gênero, de raça e de orientação sexual, para citar somente algumas.

Dilma, no seu estilo durão, fere de morte o estereótipo da mulher doce e meiga e, ao fazê-lo, provoca reações inflamadas. Mas que trabalhadora brasileira não sabe o quanto é preciso se impor, gritar e ameaçar, para ganhar o respeito dos outros no mercado de trabalho, na rua, com os filhos, com os companheiros, na oficina mecânica ou dentro de um ônibus lotado, no nosso País?

E a outra candidata mulher, Marina Silva, hoje apoiadora ferrenha do candidato e macho alfa Aécio Neves? Quem se lembra qual era uma das principais críticas dirigidas a ela no primeiro turno? Diziam que ela podia não ter capacidade para governar porque passa muita fragilidade. E desde quando a fragilidade, inerente à condição humana, é sinal de fraqueza?! Desde que se convencionou que o sexo frágil é o feminino.

Não é possível que, depois de tantas conquistas e lutas, as mulheres brasileiras possam votar sem estarem plenamente conscientes do sexismo que domina a figura do candidato do PSDB à Presidência e das implicações subliminares e culturais de uma possível vitória de Aécio no segundo turno.

As mulheres são maioria no eleitorado e influenciam muito mais que os homens o voto de seus filhos e familiares. Dilma precisa estabelecer um diálogo mais claro e direto com as mulheres.

Creio que é obrigação também da candidata puxar esse debate, explicitando os preconceitos e valorizando a mulher brasileira como cidadã plena e não como a mercadoria que, durante tantos anos, até antes do governo Lula, a propaganda oficial “vendia” no exterior como nosso principal “produto de exportação”.

A eleição, que deveria ser uma maravilhosa festa da democracia, não deve servir para dar vazão aos ódios de todo tipo, nem tampouco para autorizar comportamentos coibidos a duras penas após muita luta.

O Brasil quer paz e respeito e as mulheres, acima de todas as pessoas, são as que mais valorizam a paz porque são as que mais lutam contra todo tipo de violência – violência contra elas mesmas e contra seus filhos, sobretudo nas periferias do Brasil.

Um voto não é apenas uma opção política, mas também uma escolha simbólica com repercussões culturais e psicológicas, sobretudo para as gerações futuras. Será que o Brasil, depois de eleger um retirante nordestino e uma mulher militante como presidente, quer mesmo substituí-los por um playboy cujos atributos mais elogiados na internet são as mulheres com que ele se relacionou? A resposta cabe a cada uma de nós, em 26 de outubro.

*É Jornalista especializada em direitos humanos e minorias. Trabalhou com o enfrentamento ao tráfico de pessoas no Ministério da Justiça e no Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime. Desde 2008, é assessora especial da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial

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