Minha idade? Nem a pau…

Meu pai era um homem muito simples, mas era vaidoso. Não com ele. Mas apreciava o “belo”.
Carro bonito, casa bonita, gente bonita…
E assim, meu pai não gostava nem um tiquinho da tal da velhice.
Nem eu. Tirando as pintinhas marronzinhas dos braços e das mãos…..
Ele sempre me dizia, a partir de uma certa idade, quando eu ia dar parabéns pra ele:
-parabéns, por conta de quê, menina? Depois dos 40 a gente não devia nem lembrar de aniversário!!!

Meu pai não contava a idade dele pra ninguém.
Preferia pagar a passagem de ônibus inteirinha, do que ter que mostrar a tal carteirinha de idoso.

Um dia chega meu pai na minha casa.
– pai do céu! O quê é isto na sua testa, pelamordedeus?
– eu estava descendo do ônibus, e um engraçadinho quis me assaltar! Hã!!! Parti pra cima dele… Aí ele me deu uma paulada. Mas minha carteira ele não levou…
– paaaaiii, num brinca com essas coisas não, pai. Esse povo anda matando por 2 reais de troco…

Passado uns quatro meses, meu pai começou com uns troços esquisitos.
De vez em quando esquecia de como preencher cheque, o nome de alguém, onde estava… E o trem foi se agravando. Tava na sala, achava que tava no banheiro, tava no quarto, achava que tava na sala…
Levei meu pai ao médico.

– boa tarde!
– boa.
– o senhor está bem?
– tô, num tá vendo?
…..
– como é o nome do senhor?
– Jaime.
– onde o senhor nasceu?
– em Minas Gerais.
– o quê que essa moça é do senhor?
– minha filha.
– como é o nome do nosso presidente?
– José Sarney.
– quantos anos o senhor tem?
– JOSÉ SARNEY.
– nããão. Eu quero saber quantos anos o senhor teeeemmm…
– JOSÉ SARNEY.
Mais duas vezes… JOSÉ SARNEY.
Na terceira, o médico olhou pra mim com uma cara de quem tinha visto um ET.
– olha, eu acho melhor o senhor partir pra outro tipo de teste porque, se depender do meu pai falar pro senhor quantos anos ele tem, nós vamos ficar aqui até amanhã, viu?

No dia seguinte meu pai se operou.
Furou a cabeça toda pra retirar uns coágulos que tinham sobrado da paulada do “engraçadinho do assaltante”.
Quando ele foi pro quarto, já normalzinho, eu contei pra ele a história do Sarney.
Ele riu de sacudir…
– Mas ele queria saber quantos anos eu tinha, é? Hããã… nem a pau…

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