Porquê eu gosto da chuva

Quando eu tinha 27 anos, eu trabalhava no Itamaraty, com uns técnicos em informática do SERPRO.
Comigo trabalhava um rapaz, que eu adorava. Adoro até hoje.
Além de analista de sistemas, ele é psicólogo e é muito, muito divertido.
Várias vezes, depois do expediente, ele e eu ficávamos sentados no cafezinho, conversando.

Eu sempre dizia pra ele, que eu não entendia o porquê as pessoas precisavam de psicólogo. Eu achava que era jogar dinheiro fora. “Esse povo tem mania de complicar a vida…” Eu dizia pra ele. Ele ria…

Luana nasceu numa época de uma seca das mais bravas que eu vivi em Brasília.
Rafael, meu primeiro filho, tinha nos deixado fazia um ano. Fiquei louca pra ter outro filho e não dei ouvido nem à minha mãe e nem aos médicos, que me diziam para esperar um pouco pra engravidar.
Conclusão…
Meu amigo teve que me indicar um psicólogo…….

Sofri quase um ano, porque naquela época psicólogo não conversava com psiquiatra, e meu tratamento era com sessões de dessensibilização e exercícios para desviar meu pensamento da morte. Pensava nela o dia todo e sonhava com ela à noite, quando conseguia dormir… Trem de doido… Nem uma gotinha de remédio. Nunca fiz tanto quebra cabeça e palavra cruzada na minha vida…
E eu sofria meio que sozinha, porque assim como eu pensava, muitos também pensavam e ainda pensam: “As pessoas têm mania de complicar a vida…” Foram meses muito difíceis.
O que acontecia dentro da minha cabecinha:
Meu inconsciente me dizia pra “não amar”, porque ia perder de novo. Meu consciente era só amor…
Era uma briga danada…
Nas dessensibilizações, o paciente entra em estado de profundo relaxamento e o terapeuta o coloca nas situações nas quais ele não se sente bem.
Nas minhas sessões, eu era sempre colocada em lugares secos e quentes. Grama esturricada, o verde das plantas amarelado, terra partida, muito sol e muito calor.
Assim estava Brasília quando Luana nasceu.
Eu quase morria. Chegava a suar frio… Depois do relaxamento a gente conversava sobre o que eu havia sentido.

Numa das últimas sessões, eu já estava bem melhor, meu terapeuta teve uma conversa comigo muito interessante.
Vejam só o porquê eu adoro a chuva:
Ele me disse que eu me sinto muito mal em lugares quentes, não é propriamente por conta do sol e do calor.
Inconscientemente, eu ligo a falta da chuva à miséria, à fome, e finalmente à morte. Assim eu ouviu e vi durante durante toda a minha vida. Gente morrendo de fome, gado morrendo pela falta de água e pasto, grama feia, o verde das plantas amarelo. Tudo isto por falta da chuva.

Será que Freud explica essa maluquice do meu inconsciente?

Ontem eu acordei e olhei o quintal da minha casa. Brasília tem chovido muito.
Bati o olho no quintal e minha alma se abriu. A sensação que eu tive foi de paz, de alegria. De vontade de cantar…

Vocês já repararam que os passarinhos cantam mais quando termina de chover?
E que eles quase não aparecem quando está muito seco?

Eu acho que é porque eles não gostam de grama esturricada, de verde amarelado, de gente e de gado morrendo por falta da chuva.

Nem eu…

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