Ouça o silêncio

“Aprenda a ouvir os ruídos do silêncio
Por Eliana Rezende

A experiência do silêncio em uma sociedade tão ruidosa como a nossa pode causar estranheza, perturbação ou mesmo um sentido de estar esquecido, à margem de algo ou alguma coisa. Como se estivesse perdendo algo.

Às vezes, o silêncio tem um som ensurdecedor e quando vem da alma pode conter ainda mais ruídos.

Os ruídos das memórias fazem com que, inúmeras vezes, nos sintamos atordoados pelos seus sons. Trazem-nos experiências vividas, caminhos trilhados, experiências compartilhadas ou o seu contrário: caminhos interrompidos, laços desfeitos, ideias e projetos inacabados.

Conviver com tais ruídos pode fazer pensar que a surdez seja o caminho mais desejável nessas horas.

Mas o silêncio aqui referido não é aquele exterior vindo de fora para dentro. Aquele que muitas vezes e em vão buscamos em lugares e espaços físicos artificiais ou naturais. É o silêncio interior, aquele que faz com que pensamentos e problemas pessoais fiquem longe e deixem espaços para que o pensamento criativo trafegue rápido e ágil por saberes e fazeres que acrescentam. Que tragam largura ao espírito e que aprofundem nossa sabedoria e autoconhecimento.

É tranquilizador saber que estes silêncios não tem que estar ligados a momentos e espaços formais, mas que podem vir de toda e qualquer experiência propiciada por viagens e deslocamentos físicos ou mentais, por travessias de fronteiras não medidas em quilometragens e marcos geográficos, mas sim por aqueles abismos d’alma que como vales profundos nos fazem encontrar com nossos limites e finitude. São os sótãos de nossa alma, que vez por outra precisam ser abertos para que o ar entre e o sol aqueça e ilumine. Às vezes, são feitos de sombras e por isso é importante de ser aberto, olhado, revolvido.
Tais silêncios também podem vir de experimentações e sensações oriundas de diferentes expressões artísticas, culturais, olfativas, gustativas – cabem aqui filmes, exposições, experiências gastronômicas, ou seja, tudo o que ofereça aos sentidos reflexão contemplativa. E isso requer aprendizado, agudeza perspicaz, sentido de busca e o que é mais importante: um sentido de valor que não é o de contas bancárias, cartões de crédito e aplicações financeiras. Os que possuem apenas estes sentidos simplesmente serão surdos aos ruídos e sons de sua alma!

Mas esse silêncio povoado pelos ruídos da alma faz muito barulho e rapidamente descobrimos que quem nos habita pode ter muito mais a dizer que qualquer coisa que esteja lá fora; seja aparentemente ruidoso ou silencioso.

Este silêncio de alma ou os seus ruídos devem ser considerados como as vagas que encontramos no mar: são sempre prenúncios de algo. Do lado de cá, temos mesmo é que aprender a decodificá-los e entender que eles possuem seu formato de “escrita” em nós. Vincam caminhos, traçam percursos, indicam trilhas, opções, trechos abandonados, rumos perseguidos. Nos dizem de onde viemos e para onde vamos. Apontam possíveis pontes. Libertam-nos!

Acho que nossa sociedade ruidosa é também uma sociedade amedrontada! Teme de todas as maneiras estar consigo mesma e descobrir que trabalhar e acumular (isso no que diz respeito à cifras) tanto pode não estar lhe fazendo verdadeiramente feliz.
Na nossa civilização, as pessoas chegam a achar que o silêncio é o sinônimo de estar só e acham que isso seja um problema de rejeição e desafeto: acreditam que isso lhes mostraria que não são amadas.

No entanto, não é nada disso! O silêncio é cheio de tantas coisas. Ele é excelente companhia e de fato nos faz saber quem somos e do que de fato somos feitos e como preenchemos em nós vazios.

Exercito o silêncio todos os dias, em especial quando chego em casa: acendo apenas uma luz de cada vez e não ligo nada… vou me aquietando do dia… vou tomar banho, e em vários dias nadar… Contar azulejos dentro da água pode ser recuperador! A mente se esvazia e a respiração oxigena ideias e sensações. Para quem, como eu, vive da escrita e da fala, é fundamental!

Atordoa-me apenas quando os ruídos de dentro sendo tão maiores calam os de fora, e causam em seu possuidor o temor de com ele se encontrar. O bom mesmo é quando ruído e silêncio encontram a harmonia de sons, sem sobras e nem faltas.

O que de fato fica como dica é talvez respeitar tanto um quanto o outro, e encontrar suas formas de manifestações em nós.

Experimente desligar os sons externos (fones, iPhones, TVs, tablets e tudo o que está a tua volta) e ouça o que vem de dentro de você: faça-se companhia! Descubra o que seu EU tem a lhe dizer. Talvez descubra que esteve tanto tempo ao lado de quem você nem conhece direito. Não tenha receio do que os sons da sua alma venham a lhe revelar. Você não está sozinho: está em sua companhia! Descubra que escrita sua alma tem e que mensagem traz.

Lucraríamos muito em aprender a desenvolver esta audição.

Ponha atenção aos seus silêncios e seus ruídos, buscando neles o que lhe falta para aqueles lampejos de inspiração: serão úteis de fato!

É só ouvir…”

Publicado originalmente no Blog Pensados a Tinta

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