Eu e as festas de final de ano

Na minha infância, na casa dos meus pais, o Natal era comemorado de uma forma muito modesta.
Não tinham festas, nem ceias e nem “Papai Noel”…
Mamãe fazia sempre um jantarzinho. Bem antes da meia noite. Mas tudo muito simples. Só pra nós mesmo.
Jantávamos e depois íamos dormir.
Quando eu conseguia ficar acordada, eu assistia, pela TV, a “Missa do Galo” com minha mãe. Me recordo de ter ido à “Missa do Galo” uma vez. Fui com meu pai. Minha mãe, não me lembro a razão, tinha viajado. Meu pai, homem muito simples, se meteu num paletó preto, e lá fomos nós, a pé, pra igreja. Fazia uma frio danado… Não me lembro se meus irmãos também foram. Me marcou mesmo, foi o paletó preto do meu pai.
Se tinham árvore de Natal e presépio na minha casa, era por insistência da minha irmã. Ela amava montar seus presépios, que eram lindos. Até hoje ela comemora o Natal com sua família, monta sua árvore e seu presépio – não tão “sofisticados” como os que ela fazia em nossa casa.
Mas nada disso me incomodava. Era gostoso o jantar da minha mãe. E ali estavam minha mãe, meu pai e meus irmãos. Esse, hoje eu tenho mais certeza do que nunca, era o meu presente de Natal.

Acho que puxei minha mãe. Nunca tive e continuo sem ter, esse “espírito natalino” que toma conta da maior parte das pessoas nesta época do ano.

A passagem do ano pra mim, chega a ser “meio problemático”. Me invade uma sensação de incerteza danada. Sempre foi assim. “O que será que vem por aí?” Eu sempre me perguntei.
Hoje, depois da partida da Marília, mais do que antes, essa sensação invade minha alma. É meio sofrido…
E aí, pra romper o dia, eu tento me convencer de que a noite do dia 31 de dezembro para o primeiro dia do outro ano, é uma noite como outra qualquer.

Sinto um certo alívio quando essas festas terminam…

“Meu presente de Natal
No Natal de minha infância não havia árvores de Natal, nem Papai Noel. Havia apenas a baça claridade da lua banhando a estrada.

LUIZ RUFFATO
Não me comove esta época do ano. Nunca me interessei pelas festas de Natal e de Ano Novo. Quando criança passava as férias de verão na Fazenda do Paiol, nome pomposo para um pedaço de terra cheio de voçorocas e coberto por capim-gordura perdido na colônia italiana de Rodeiro, Zona da Mata mineira. Lá moravam os Ruffato, governados pela nonna Marieta Micheletto, mulher de gestos raros e econômicas palavras, longos cabelos cinzentos ajeitados em coque, melancólicos olhos negros como os tecidos que vestiam sua vetusta viuvez.

Findo o período letivo, minha mãe arrumava as parcas roupas numa bolsa de viagem de napa e me colocava no ônibus da Viação Marotti, um Mercedes-Benz do final da década de 1950, recomendando que o motorista, o próprio Marotti, baixinho e sempre mal-humorado, me apeasse na praça São Sebastião, onde certamente haveria alguém à espera. Aos solavancos atravessávamos as montanhas percorrendo a estrada esburacada de terra, rezando para que as chuvas, que nos espiavam por detrás das nuvens carregadas, não desabassem, senão quedávamos atolados pelo caminho.

E lá íamos envoltos na poeirama, a todo momento estacando no meio do nada para a subida ou descida de passageiros arrastando mercadorias acondicionadas em sacos de aniagem. As cidades se sucediam: Dona Eusébia, onde meu pai havia sido criado como agregado dos Nalon, donos de viveiros de mudas de laranja e limão; Astolfo Dutra, o rosto e as mãos lambuzadas de picolé; Sobral Pinto, fedor que emanava da fábrica de adubos; Diamante, tão pequena mas possuidora de uma estação de trem; e, após duas horas de sol e calor, Rodeiro.

O ônibus contornava a praça, estacionando ao lado da igreja de São Sebastião. Marotti me desembarcava e entregava a um dos irmãos da minha mãe, Antônio ou Pedro. Após pedir a bênção, cruzávamos a praça, eu fascinado com os saguis que habitavam as árvores raquíticas, até alcançarmos a charrete estacionada em frente ao bar do Pivatto. Antes de rumarmos para a roça, passávamos na padaria do seu Mazzini para nos abastecer de caçarola, um pudim de queijo que, junto à piada, espécie de panqueca doce que substituía o pão pela manhã, dimensiona a vastidão do tempo que se foi.

Na Fazenda do Paiol os dias transcorriam mergulhados em irreal felicidade. O cheiro de manga abraçava-nos, meninos e meninas trepados nos troncos grossos, o sumo da fruta melando as mãos, a boca, o rosto, escorrendo pelo pescoço, coalhando de nódoas as roupas. Mangas que iriam se transformar em um líquido pastoso amarelo-avermelhado, depois de horas e horas de revezamento entre tias e primas, colheres de pau remexendo enormes tachos de cobre assentados sobre o fogão improvisado no terreiro, à sombra de uma figueira.

Uma madrugada eu despertava, o coração sobressaltado, com o berro agônico do porco. Longo dia, o da matança. Coagulado, o sangue viraria chouriço. A gordura armazenaria parte da carne em latas de conserva – quanto mais tempo permanecesse imersa na banha, mais saborosa se tornava. Outra parte seria pendurada em defumadores sobre o fogão de lenha e outra ainda seria usada para fazer linguiça. A pele rendia torresmos; os ossos alimentavam os cachorros. Ao final, tudo seria distribuído equitativamente entre os parentes – e ainda alguém lembraria de reservar porções para vizinhos distantes e pobres, que mal conhecíamos.

Então, o 24 de dezembro chegava. Acordávamos cedo para entrar na fila do banho – que naquela data exigia bem mais que apenas deixar a água escorrer pelo corpo. Éramos inspecionados, cheirados e vigiados. Após o almoço, em nada diferente das refeições dos outros dias, púnhamos a roupa mais bonita e os melhores calçados, e rumávamos para Rodeiro. As mulheres e as crianças pequenas, de charrete. Os homens, a cavalo. As crianças maiores e os adolescentes, a pé. Pouco a pouco vencíamos o trajeto, cortando as terras dos Ferrari, dos Volpato, dos Vanelli, dos Paschoalino e dos Conti, quando enfim avistávamos os primeiros telhados do povoado.

Ao entrar em Rodeiro nos espalhávamos por entre a italianada que acorria dos confins das montanhas, gente que muitas vezes só se dirigia à cidade naquela ocasião. A praça São Sebastião enxameava e aproveitávamos para colocar as novidades em dia. Negócios eram tratados, namoros começavam, antipatias se consolidavam. Ao aproximar a meia-noite, todos nos encaminhávamos à igreja para participar da Missa do Galo. O padre Jaime, um holandês beberrão e sistemático, que falava uma língua incompreensível, adiava o encerramento da cerimônia enfadonha, para desespero dos fiéis.

Não havia luzinhas chinesas. Não havia árvores de Natal. Não havia Papai Noel. Não havia ceia. Não havia troca de presentes. Não havia espírito natalino. Havia, na volta para a roça, apenas a baça claridade da lua banhando a estrada, miríade de estrelas latejando na escuridão infinita e o ruído dos nossos passos calados, intimidados pela beleza do universo. Se eu pudesse reivindicar um presente de Natal seria esse meu pedido: ter de novo aquela inocência, aquela ingenuidade, aquela paz que habita a verdade das coisas simples e que vamos desperdiçando ao longo da vida.”

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