Herança muito valiosa!

Desde muito pequeninas que Luana e Marília viajaram comigo e Wayne.
Era uma trabalheira danada. Carrinhos, comidinhas, roupinhas, brinquedos…
Eu não gostava de levar babá. A única vez que levei, foi um fiasco. A babá me deu mais trabalho que as duas juntas. Fomos pra praia e ela, a babá, que nunca tinha visto o mar, resolveu se achar a “menina do Rio”. Se enfiava mar adentro e eu quase morria de aflição. Foi complicado!!!

Foram viagens muito gostosas. Toda a trabalheira era recompensada pela alegria de poder curtir minhas filhotas em tempo integral. Tenho lindas lembranças desse tempo. E saudades…

Quando Luana tinha uns 5 anos e Marília uns 3, resolvemos levá-las pra conhecer a Disney.
Me perguntei várias vezes se elas não eram muito novinhas, se iriam aproveitar a viagem, se não iriam se esquecer muito rápido de tudo que tinham visto e vivido por lá. Será que não era melhor esperar elas crescerem um pouco? Foi uma dúvida danada. Mas fomos.

Me convenci de que tínhamos feito a coisa certa, no instante em que vi o encantamento, o brilho nos olhos da Marília quando ela entrou no castelo da Cinderela. A boca não fechava e ela ficou por um bom tempo, literalmente, paralisada. Olhava pros lados, pra cima, pra baixo sem se mexer. Eu enchi meus olhos de lágrimas por ver tanta alegria no rostinho da minha pequena.

Quando eu li esta crônica que transcrevo a seguir, me lembrei muito das nossas viagens com Luana e Marília pititicas, e tive a certeza de que as crianças aproveitam sim, as viagens. Não importa que idade tenham.

Nós “enxergamos” o mundo com os olhos da idade que temos.

Tomara que meus netinhos viajem bastante! Essa vai ser a maior herança que deixaremos pra eles!!!
“A MAIOR HERANÇA: UMA CRÓNICA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO
Discordo sempre quando ouço alguém dizer que as crianças não aproveitam as viagens. Ainda não têm idade para aproveitar, diz essa pessoa que pode ter muitos rostos diferentes. Não consigo entender esse ponto de vista. Parece-me que as crianças aproveitam as viagens de forma diferente, desfrutam de aspetos que nós, muitas vezes, já esquecemos de prestar atenção.

As crianças não fingem interessar-se por aquelas histórias que os guias repetem, com mais ou menos rotina na voz, e que toda a gente esquece após algum tempo, se é que chegam a ouvi-las. Em vez disso, as crianças deixam-se invadir por cheiros novos, cores novas, sons novos, estímulos que alargam a paleta daquilo com que contam a partir daí: na sua consciência, no modo como desenham o mundo e o avaliam.

As crianças não são testemunhas, são descobridores. Quando chegam a um lugar que desconhecem, não deixam que o peso do que sabem molde o que as espera. Levam os sentidos abertos, prontos a serem marcados para sempre.
Se perderem essa disponibilidade, nunca aprenderão a viajar e, em consequência, nunca serão capazes de desfrutar dessa vantagem. Quando falo de viajar, não me refiro apenas à oportunidade de ir muito longe, a outros países ou continentes, refiro-me à curiosidade pelo mundo, à capacidade de se surpreender com o que é diferente, de não temer essa diferença, de desejá-la.

Ainda no carrinho de bebé, procurei fazer várias viagens com os meus filhos, todas as que foram possíveis. Em tempos, os meus pais fizeram o mesmo comigo. Com os meus filhos, as pessoas que viajavam ao nosso lado no avião tiveram de ter paciência com o bebé a chorar às vezes. Com os meus pais, nunca hei de esquecer o cheiro do carro de madrugada. Num e noutro caso, havia o fascínio pelo caminho e a expetativa por tudo o que imaginávamos acerca do lugar para onde nos dirigíamos.

Aquilo que quero deixar aos meus filhos são viagens. Como outros acumulam imobiliário e bens, quero que sejamos capazes de acumular momentos e lugares onde estivemos vivos e juntos. Essa será a fortuna que partilharemos. Quando falo de viajar, refiro-me a esse prazer de olhar em volta e saber que estamos ali, sentirmo-nos. Mais do que uma promessa, viajar é a certeza de estar vivo. Por isso, aquilo que desejo aos meus filhos é cidades e pessoas, montanhas e horizonte, desejo-lhes Nova Iorque e a Amazónia, desejo-lhes São Petersburgo e o entardecer lento da savana africana, desejo-lhes sorrisos da Tailândia e sake de Quioto.

Ao mesmo tempo, desejo que nunca percam a capacidade de ir ali ao fundo e, da mesma maneira, surpreenderem-se com o que lá está, com a luz e a temperatura ligeiramente diferentes. Desejo que se apaixonem sempre, por tudo. E que sejam capazes de passar essa eletricidade aos seus filhos, meus netos por nascer, porque é ela que dá ânimo e sentido: combustível e estrutura da vida. Aquilo que desejo aos meus filhos é que a variedade de opções que o mundo lhes oferece nunca deixe de deslumbrá-los.”

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