… e eu não me esqueci…

Respaldado pelo AI 5, em 1968, o Costa e Silva aposentou, compulsoriamente, os ministros Vitor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva, ministros do Supremo Tribunal Federal.
Em solidariedade à cassação dos referidos ministros, todos grandes juristas, o então Presidente do Supremo, Antônio Gonçalves de Oliveira pediu demissão do cargo.
Muitos conhecem essa história.

Na noite desse pedido de demissão, eu estava na casa do Ministro Vitor Nunes Leal, a quem eu chamava, carinhosamente, de tio Vitor, na Península dos Ministros, quando lá chegaram o Ministro Gonçalves de Oliveira, sua esposa (um doce de mulher), outros ministros do STF, e vários políticos de renome à época.

Me lembro bem da expressão de cada rosto que entrava na casa do tio Vitor.
Eu era novinha e não estava entendendo muito bem o que estava acontecendo. Só sentia que era alguma coisa muito séria.

Chamei tia Julimar, esposa do tio Vitor, num canto e perguntei:
– tia Julimar! O que está acontecendo?
Ela segurou as minhas mãos, com muito carinho, como sempre me tratava, e me disse:
– você está assistindo a um ato de violência contra o nosso país. Este ato entrará para a história do Brasil. Quando você crescer, e ler sobre o período da ditadura, você, com certeza, irá se lembrar deste momento.

Obviamente que, na manhã seguinte, ela teve que se sentar ao meu lado e me explicar tudo muito direitinho…
Ali, começou meu interesse pela política.
Tio Vitor me emprestou um livro sobre a “SS”, bem propício para o momento que estávamos vivendo. Tempos negros. O livro era forte, me causava náuseas…

Sexta feira, dia 4 de março, eu estava em um centro radiológico com Luana, fazendo um exame no Gustavo, e a TV estava ligada.
A Globo transmitia, ao vivo, como não!!!, todo o “show de horrores” proporcionado pela Polícia Federal, leia-se juiz Sérgio Moro, juiz de Primeira Instância de Curitiba.
Fiquei em frente à TV assistindo a tudo, vendo aquele aviãozinho parado na pista do aeroporto de Congonhas, com a porta aberta, escada armada, só esperando o passageiro que nele embarcaria, para decolar. Àquela altura, pra mim, não foi difícil imaginar quem seria o tal passageiro, e muito menos qual seria o destino do aviãozinho. Assim eu imaginei…

Com Gustavo no colo, me aproximei da janela, “olhei pro nada”, e disse pra minha tão querida tia Julimar. Em voz alta mesmo:

– é tia Julimar!!!! Eu cresci, virei avó, e depois de tantos anos estou em frente à TV, assistindo a um outro episódio de violência contra a nossa democracia, que, com certeza, entrará para a história do nosso país…

Me lembrei do livro sobre a “SS”….

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s